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- 29/11/06 19:11 Concordo com muitas das medidas sugeridas. Queria apenas comentar algumas delas:
5. Disciplinas de banda estreita. Embora eu seja docente do ensino superior e não esteja totalmente a par dos currículos dos Ensinos Básico e Secundário, dá-me ideia que existe um grande número de ramos e opções semi-profissionalizantes, mesmo a nível do 8º ou 9º ano de escolaridade. Acho mal. Um ensino básico, obrigatório, não deve ter preocupações de instruir para profissões particulares, mas deve, como sugerido, ser generalista. Aquelas divisões criam confusão nas escolas. Mesmo ao nível do Secundário (10º ao 12º ano), a distinção entre cursos profissionalizantes e não profissionalizantes deve ser bem clara. O desejável será criar/adaptar escolas profissionais, onde um mínimo de 60 ou 70 por cento das matérias leccionadas sejam, de facto, técnicas especialistas. Misturar ensino generalista com ensino profissional é, a meu ver, negativo.
10 e 11. Exames nacionais e exames de admissão. Constituem um verdadeiro imperativo nos tempos actuais. Só não sei por que é que este Ministério não tem coragem para os estender a todas as disciplinas, nos 5º e 12º anos. Seria bom para todos os intervenientes na Educação: alunos, pais, professores e escolas. Um exemplo: é sabido que algumas escolas (públicas ou privadas, não interessa) inflaccionam as notas. Assim, quem pode, muda-se para essas escolas para ter melhor média de acesso ao ensino superior. Isto é uma injustiça tremenda. Assim, para defesa dos próprios alunos, os exames finais devem existir e ter um grande peso nas médias de acesso ao ensino superior. Só quem eventualmente se quer aproveitar desta fraqueza do sistema é que não concordará com tal proposta!

Item editado por: JPFerreira, em: 02/12/06 11:12
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- 11/12/06 18:12 Concordo com algumas propostas aqui referidas. Mas gostava de aproveitar para citar que alunos do secundário ainda tem imensas disciplinas de que não necessitam nos seus cursos, (no meu caso Cientifico Tecnologico), tais como: Área Projecto, Filosofia(2x90min), Português (2x90min), Educação Física (2x90min). Se nestas disciplinas tivessemos apenas (2x45min) ou apenas 90min por semana, era o ideal.
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- 12/12/06 22:12 Factores relacionados com o insucesso escolar no Ensino básico em Portugal: contributos para ajudar a resolver o problema.

José Precioso
Instituto de Educação e Psicologia
Universidade do Minho


Resumo

Segundo os dados dos Ministérios da Educação e da Segurança Social e do Trabalho apresentados no Plano Nacional de Prevenção do Abandono Escolar, o insucesso escolar - palavra polissémica que abordaremos apenas no capítulo das retenções - é muito elevado em todos os níveis do ensino básico, particularmente no terceiro ciclo. Verifica-se que, entre o ano lectivo de 1994/95 e o de 1999/2000 ocorreu um aumento das retenções no terceiro ciclo do ensino básico.
Perante estes dados, é importante reflectir sobre este problema, fazer o diagnóstico e, em face dele, encontrar as soluções mais adequadas para o resolver. O relatório aponta vários factores (relacionados com o indivíduo, a família, a escola e a sociedade) para explicar o insucesso e abandono escolar. O relatório transmite a ideia de que o fenómeno é complexo e multifactorial. No entanto, pensamos que o documento não identifica uma grande parte dos factores relacionados com insucesso que estão ligados à escola.
Para além do conjunto de factores apresentados no relatório, pensamos existirem outros que nos parecem contribuir decisivamente para explicar o crescente insucesso no segundo e terceiro ciclo do ensino básico e que são susceptíveis de ser modificados. Esses factores estão relacionados com as dimensões curricular, psicossocial e ambiental da escola que explicam as elevadas taxas de retenção e abandono escolar em Portugal.
A quantidade e diversidade de disciplinas; a elevada carga horária; a extensão dos currículos disciplinares; a inexistência de currículos alternativos (existindo estes apenas para os alunos com necessidades educativas especiais); a falta de adequação dos programas à idade e fase de desenvolvimento em que os alunos se encontram; a elevada carga de conteúdos relacionados com a memorização; a falta de relação entre os conteúdos e a vida; a extrema exigência de alguns professores; a quantidade e (má) qualidade dos manuais escolares; a aplicação de provas de avaliação mal construídas; a concentração de várias provas de avaliação na fase final dos períodos e ano lectivo faz com que muitos alunos, verdadeiramente vítimas do sistema de ensino que temos, sejam injustamente julgados e condenados a uma retenção.
A resolução do problema do sucesso educativo dos alunos passa por um correcto diagnóstico da situação e de uma acção global sobre todos os factores de risco. Este problema é complexo mas vulnerável. È bom lembrar que em 1960 a mortalidade infantil era de 77 mortes por cada 1000 nascimentos, mas passado 40 anos desceu para cerca de 5. Mas foi à custa de um programa global de acção. Também é possível fazer o mesmo em relação ao insucesso escolar. Se não o erradicarmos pelo menos poderemos atenuá-lo.



Introdução


Os dados expressos no gráfico 1 mostram que, de uma forma geral, existe um elevado insucesso escolar em todos os níveis do ensino básico em Portugal, particularmente no terceiro ciclo (embora a palavra insucesso seja polissémica (Afonso, 1988) neste artigo será empregue fundamentalmente para indicar a retenção e/ou o abandono escolar). Constata-se ainda que, entre o ano lectivo de 1994/95 e o de 1999/2000, ocorreu uma diminuição das taxas de retenção no 1.º ciclo do ensino básico, mas um agravamento nos anos e ciclos seguintes. Perante tal quadro, urge reflectir sobre as vantagens e as desvantagens de uma retenção, sobre as suas causas. Pois tratando-se de um fenómeno indesejável, encontrados os seus determinantes, melhor poderemos encontrar as soluções para o controlar.

Gráfico 1

Fonte: Ministério da Educação e do Ministério da Segurança Social e do Trabalho “ Plano Nacional de Prevenção do Abandono Escolar” (2004).

O principal benefício de uma retenção, parece assentar no pressuposto que a retenção do aluno no mesmo ano lectivo, poderá aumentar as probabilidades de no ano seguinte, vir a ter sucesso nas aprendizagens que a escola propõe. Teoricamente isso seria verdade. No entanto, o resultado prático de muitas reprovações não é, como muitos professores poderão testemunhar, uma melhoria nas aprendizagens. Verifica-se que muitos alunos voltam a tirar negativa ou então, tiram negativa em disciplinas que no ano anterior tinham obtido positiva (Roazzi e Almeida, 1988).
Admitindo, no entanto, que em alguns casos a retenção contribui para a aquisição dos saberes escolares não adquiridos e dado que existem disciplinas em que as aprendizagens presentes determinam e muito, o sucesso de aprendizagem futuras (casos da Matemática, das Línguas, e pouco mais), talvez se justifique uma repetição. Sabemos, contudo, que a maioria das disciplinas não têm um regime de precedência tão importante. Isto é, para se aprender a matéria do 7º ano de Biologia, não é necessário saber nada do que foi ensinado no 5º ou 6º ano, o que reduz a necessidade de uma repetição, pois não tem implicações directas no sucesso escolar futuro do aluno. Passa-se o mesmo na disciplina de História, na de Geografia, etc. Poderá ainda dizer-se que o aluno passaria sem saber esses conteúdos. Tal facto não tem a importância que normalmente se lhe atribui, pois a maioria dos conteúdos ensinados em muitas disciplinas não tem grande importância para a vida. Por outro lado, está demonstrado cientificamente, que grupos de alunos que tiraram negativa e outros positiva, ao final de um ano, quase não apresentam diferenças relativamente aos saberes ligados à memorização, como são, infelizmente, quase todos os que se desenvolvem na escola. Salienta-se ainda que o aluno não tem que saber tudo. Caso contrário nem uma “cabeça de elefante” lhe bastaria. Talvez o mais importante, na conjuntura actual, seja ensinar o aluno a aprender a aprender.
Outra vantagem que poderá advir da retenção será a de fazer com que o aluno adquira mais maturidade e possa por via de um melhor desenvolvimento cognitivo, ter mais sucesso no futuro. Quando se trata de alunos muito novos, que entram para o 1º ciclo com cinco anos, e para o 2º ciclo muitas vezes ainda com nove, talvez um ano de retenção pudesse contribuir para que rapidamente ficassem em fase entre as exigências curriculares, a idade cronológica e a maturidade intelectual. Também é bom lembrar que são idades em que os alunos estão em transformação muito acelerada. E um aluno que num ano se revelou imaturo, no ano seguinte surpreende pela forma como se autonomizou. Acontece isso sobretudo na transição da infância para a adolescência. Contudo, mesmo nestes casos, a retenção pode ser prejudicial ao aluno.
Na continuação deste artigo analisaremos em maior pormenor as desvantagens das retenções, as suas causas e algumas medidas preventivas.

Desvantagens das retenções
As reprovações estão, em muitos casos, associadas a um conjunto de efeitos colaterais que trazem mais prejuízos que benefícios ao aluno, à escola, à família e à sociedade.
A pior de todas as consequências relacionadas com a retenção é o abandono escolar por parte dos alunos.
Uma análise dos indicadores de insucesso ou retenção e de abandono escolares, expressos no gráfico 2 são elucidativos da forte ligação entre os dois fenómenos.







Gráfico 2
Relação entre retenção e abandono escolar



Fonte: Ministério da Educação e do Ministério da Segurança Social e do Trabalho “ Plano Nacional de Prevenção do Abandono Escolar” (2004).

Uma reprovação pode ter muitos outros efeitos verdadeiramente demolidores sobre os alunos e as suas famílias. Pode afectar a saúde mental de alguns alunos, levando à ocorrência de sintomas depressivos, e em casos raros, ao próprio suicídio. Pode afectar a sua auto-estima e o sentimento de auto-eficácia, levando alguns alunos a sentirem-se incapazes relativamente à escola em geral ou a determinada disciplina em particular. Pode, muitas vezes, criar um exagerado desfasamento em termos de idade relativamente aos seus colegas (isto ocorre normalmente com a bi-retenção). É frequente vermos alunos com 14 e 15 anos no 6º e 7º ano, completamente deslocados. Este facto pode complexar os alunos, pode revoltá-los contra o “sistema” e fazer que com que tentem ser os melhores dos piores. A reprovação implica o afastamento dos colegas de ano anterior, a quem muitos alunos estão afectivamente ligados. A retenção pode levar à marginalidade. Está provada a associação entre a reprovação e o consumo de drogas lícitas como o álcool e o tabaco (Precioso, 1999), a marginalidade, a violência e outros problemas sociais. Pode levar à completa desmotivação e à estigmatização perante os colegas. Uma criança que reprove, fica muitas vezes marcada para a vida inteira.
No plano familiar, as desvantagens de uma reprovação são igualmente óbvias. A repetição, para além de ser um custo acrescido para a família, tem efeitos muitas vezes traumáticos. Ninguém gosta que o seu filho reprove, pois isso é extremamente desprestigiante para toda a família. Alguns pais ficam de tal forma alterados, que exercem violência física e ou psicológica sobre os seus filhos.
No plano social, as desvantagens de uma reprovação são também muitas. Quantos alunos poderiam estar já no mercado de trabalho, se não ficassem retidos um ou mais anos nos vários níveis do sistema educativo? Quanto ganhariam os professores se não tivessem alunos desmotivados (esses que muitas vezes reprovaram) a perturbar/desestabilizar as suas aulas? Os próprios colegas são muitas vezes vítimas da existência de um ou mais alunos repetentes, que se transformaram em estudantes (?) que não aprendem nem deixam aprender.
Poderia acrescentar uma longa série de argumentos sobre as desvantagens de uma reprovação. Pela argumentação apresentada, penso que é claro que a decisão de reter um aluno deve ser muito bem ponderada e deverá ser uma excepção, e não a regra. São inadmissíveis as taxas de retenção existentes no ensino básico que, como sabemos, é obrigatório e serve sobretudo para dar ferramentas básicas para que o aluno se possa integrar na vida social e não para o condenar a uma marginalização certa.



Causas das reprovações e do abandono escolar
A publicação dos ministérios da Educação e da Segurança Social e do Trabalho "Eu não desisto: Plano Nacional de Prevenção do Abandono Escolar” (Canavarro, 2004) citando o The National Economic and Social Forum (2001),” refere que a retenções e o abandono escolar são fenómenos interligados e sistémicos, ou seja, relacionados com vários factores que podem ser classificados da seguinte forma. O Indivíduo; a Família; a Escola; o Meio Envolvente, conforme se pretende representar no esquema da figura 1.


Figura 1
Domínios relacionados com o insucesso e abandono escolar

Os factores relacionados com o insucesso escolar e com o abandono do sistema de ensino relacionados com o indivíduo incluem: as dificuldades de aprendizagem; as dificuldades de saúde; o insucesso; as baixas performances na língua materna e em Matemática; a baixa auto-estima; reduzido interesse pela Escola; a indisciplina; a prática de pequenos delitos; o abuso de substâncias; a maternidade ou a paternidade precoces.
Na Família, podemos agregar: as dificuldades económicas; a baixa escolaridade; o défice de atitudes positivas relativamente à Escola; baixo envolvimento parental na Escola e nas actividades educativas; a identidade étnica e cultural minoritária; a monoparentalidade; uma história familiar de abandono escolar. (o relatório omite o horário de trabalho dos pais que não permite um contacto com a escola e um maior apoio aos filhos, etc.)
Na Escola, podemos enunciar: a falta de mecanismos de detecção precoce de casos de risco de abandono; a falta de programas de apoio a estudantes com dificuldades; a falta de programas de promoção de competências sociais; as deficiências nas instalações escolares; a reduzida atenção às passagens de Ciclo de Estudos; a falta de diversificação nas ofertas educativa e formativa; o baixo nível de acompanhamento e de apoio psicológico aos estudantes em risco de abandono; a reduzida ligação à Família e ao Meio Envolvente.
No Meio Envolvente, podemos incluir: a pressão sobre mão-de-obra não qualificada; as más condições de acessibilidade e de transporte para a Escola; uma má ligação do meio autárquico, social, recreativo e empresarial à Escola.
Para além deste conjunto de factores, pensamos existirem outros que nos parecem contribuir decisivamente para explicar o crescente insucesso no segundo e terceiro ciclo do ensino básico e que são susceptíveis de ser modificados. Existe um conjunto de factores relacionados com as dimensões curricular, psicossocial e ambiental da escola que explicam as elevadas taxas de reprovação e abandono escolar em Portugal.
A quantidade e diversidade de disciplinas; a elevada carga horária; a extensão dos currículos disciplinares; a inexistência de currículos alternativos; a falta de adequação dos programas à idade e fase de desenvolvimento em que os alunos se encontram; a elevada carga de conteúdos relacionados com a memorização; a falta de relação entre os conteúdos e a vida; a extrema exigência de alguns professores; a aplicação de provas de avaliação mal construídas; a concentração de várias provas de avaliação na fase final dos períodos e ano lectivo faz com que muitos alunos, verdadeiramente vítimas do sistema de ensino que temos sejam injustamente julgados e condenados a uma reprovação.
A seguir, detalharemos alguns dos factores que nos parecem contribuírem para que os alunos não consigam ser bem sucedidos nas aprendizagens.

Quantidade e diversidade de Disciplinas
Um dos factores que pode justificar o insucesso educativo é a elevada quantidade e diversidade de disciplinas obrigatórias (não existem praticamente disciplinas facultativas). De forma mais precisa, verifica-se que, por exemplo, os alunos no 7º ano têm 15 ou 16 disciplinas (Língua Portuguesa, Francês, História, Física e Química, Ciências da Natureza, Geografia, Inglês, Matemática, Formação Cívica, Educação Física, Área de Projecto, Estudo Acompanhado, Educação Visual, Arte e Educação, Educação Tecnológica (ou Música) e Educação Moral e Religião Católica.
É complicado para um aluno ter sucesso em todas estas disciplinas. Já que os governantes têm a tendência para fazer comparações com a Europa, convém dizer que isto não se passa em país nenhum. Recomendo uma visita ao site do Ministério da Educação espanhol e uma olhadela sobre os currícula escolar do país vizinho para se ter uma ideia da diversidade disciplinar dos alunos espanhóis e verificar que é menor que as dos nossos alunos (CIDE, 2002).


A elevada carga horária dos estudantes

Uma simples análise dos horários escolares de várias turmas de alunos do 7º ano, (crianças com idades situadas entre os 11 e os 13 anos) revela que muitas têm apenas uma tarde livre, possuem uma média 36 tempos lectivos (de 45 minutos) semanais (em três dias da semana têm 8 blocos lectivos). Significa isto que as crianças têm quase a carga de trabalho intelectual de um adulto que trabalhe, por exemplo, no sector administrativo. Por outro lado, não têm tempo para estudar. A partir deste simples documento podemos verificar que a carga horária dos alunos é bastante elevada; que um estudante que chegue a casa após 8 tempos lectivos, não pode ter motivação, nem energia mental para estudar; que quem não tiver apoio em casa dificilmente conseguirá acompanhar tamanha quantidade e diversidade de disciplinas. É frequente que tenham que ocupar os tempos livres a fazer os trabalhos escolares para casa (TPC´s); ocuparem fins de semana completos a estudar para os testes. Como podem ter tempo para estudar?
A maioria dos professores está tão concentrado na sua disciplina que nem reparam que os alunos têm mais catorze ou quinze.

Programas extensos e elevada carga de conteúdos relacionados com a memorização.

Para termos uma ideia da extensão dos programas e da carga teremos que analisar quantitativa e qualitativamente os manuais (pois é sabido que a maioria dos professores segue estes materiais pedagógicos para orientarem o ensino) (Cunha, 1999; Pereira e Duarte, 1999). Uma análise dos manuais do 7º ano revela que são em média vinte e dois (entre manuais, booklets e livros de exercícios); que o somatório das páginas de todos estes livros daria um exemplar com uma lombada de 15 cm e com 2715 páginas. Só por aqui poderemos ver o excesso de carga intelectual a que os alunos são submetidos.
Uma análise do conteúdo de alguns Manuais escolares de Biologia para o 9ºano revela que, (em média), aquilo que num manual espanhol é desenvolvido em duas folhas em Portugal são necessárias pelos menos 10. (Ver Mascaro, 2002). Para além disso o conteúdo que há alguns anos era dado em 3 blocos de 50 minutos passou a ser dado em apenas 2 blocos de 45 minutos e o programa aumentou (outrora o homem era assexuado, não eram discutidas questões de ciência, tecnologia e sociedade, etc.). Só por este exemplo podemos ter ideia de quanto aumentou a carga de trabalho dos alunos. Basta multiplicar este exemplo por 10 ou 12 disciplinas. Uma vez que os professores tendem a seguir a sua prática lectiva pelos manuais (Duarte e Pereira, 1999; Cunha, 1999) poderemos imaginar a carga curricular a que submetem os seus alunos.



Qualidade dos manuais
Por outro lado, uma análise de conteúdo dos manuais revela, entre outras fragilidades (erros científicos, erros pedagógicos, etc.), uma elevada densidade de termos e conceitos e actividades orientadas sobretudo para a memorização. Numa página de um livro, podemos encontrar, muitas vezes, dez ou mais termos e/ou conceitos novos, o que multiplicado por dez disciplinas, dá uma média de cem conceitos. Verifica-se que os manuais estão muito virados para o conhecimento, pouco para a compreensão e quase nada para a aplicação de conhecimentos. Actividades de resolução de problemas são igualmente raras nos livros da maioria das disciplinas (com excepção da matemática). Ausente está também, muitas vezes, a utilidade dos temas para a vida dos alunos, ou seja, os conteúdos não têm aplicação prática, o que dificulta a motivação extrínseca para a aprendizagem por parte dos alunos que não têm motivação intrínseca. Por outro lado torna a aprendizagem pouco útil para as pessoas. Constata-se ainda, que muitos conteúdos e exercícios propostos não estão ajustados ao desenvolvimento cognitivo dos alunos.
Os manuais são também muito extensos, com conteúdos vagos e com definições imprecisas, com “muita parra e pouca uva”. Deveria ser imposto um número máximo de páginas por livro, tal como acontece numa dissertação.

Testes de avaliação em quantidade exagerada e de qualidade duvidosa

A existência de muitas disciplinas implica uma enorme profusão de testes de avaliação. Admitindo que os professores das 10 “principais” disciplinas fazem dois testes por trimestre, os alunos realizarão no final do ano 60 provas de avaliação o que é verdadeiramente enlouquecedor. Se pensarmos que os estudantes começam a fazer testes a meio de um trimestre só terminam no final do mesmo, estando sujeitos a uma tensão e ansiedade prolongada que nada de bom traz à sua saúde mental e física e, ao invés de favorecer o sucesso educativo, contribui para a reprovação com todas as consequências que daí advêm. É bom lembrar, que estamos a falar de alunos com 11 a 13 anos de idade, que deveriam ter tempo para brincar.
Não são avaliadas outras competências do alunos como o saber fazer (conhecimento processual); o raciocínio; o saber comunicar, etc.
O facto dos testes se realizarem na parte final do período, ou do ano lectivo, leva também a que os alunos não possam ter um desempenho aceitável, devido ao cansaço acumulado (é como se um jogador no final de época fizesse três jogos numa semana).
No que se refere à Dimensão psicossocial da escola as coisas parece não estarem bem. A relação entre professores e alunos não parece ser a melhor.
Temos que atender que estamos perante alunos que estão na transição da puberdade para a adolescência, com todas as dificuldades que tudo isso, só por si, acarreta. Uma borbulha nesta idade pode ser percepcionada pelo adolescente como sendo tão grave como um cancro para um adulto. Os adolescentes são naturalmente irreverentes e os professores têm que compreender isso. É da própria natureza da idade. Na idade da “parvalheira” é quando os adultos mais exigem deles o que não está correcto.
A Dimensão ambiental da escola também não contribui para que os alunos se sintam motivados e gostem de andar na escola.
Muitas escolas não têm recreios ao ar livre e cobertos; faltam áreas de lazer cobertas; bibliotecas; mediatecas; ludotecas; salas de estudo; salas de convívio para alunos; salas de aulas com cadeiras e mesas adequadas aos níveis etários; salas com dimensões adequadas ao número de crianças; sistema de aquecimento; áreas exteriores ajardinadas, etc.

Algumas sugestões para aumentar o sucesso escolar dos alunos
Pensamos que é indispensável introduzir várias modificações nos currícula e nas práticas pedagógicas, incluindo o sistema de avaliação.
Em primeiro lugar pensamos que é indispensável retirar algumas disciplinas obrigatórias e torná-las opcionais ou então voltar a forma associações disciplinares.
Em segundo lugar, é necessário reduzir a carga horária dos alunos de forma que estes possuam pelo menos três tardes livres por semana para poderem estudar e brincar. Não nos devemos esquecer que os alunos destas idades são crianças e não adultos em miniatura.
Em terceiro lugar, é necessário reduzir os programas e torná-los adaptados à faixa etária dos alunos, ou seja, seguir a máxima do ex-ministro francês da cultura para quem é preciso “ensinar menos para que possam aprender melhor”.
Em quarto lugar os conteúdos deveriam privilegiar temas úteis para a vida do aluno, ou seja, a principal preocupação dos professores deveria ser ligar os assuntos da sua disciplina à vida. É inacreditável a pouca importância que se dá, por exemplo, à Educação para a Saúde.
Em quinto lugar, é indispensável alterar as metodologias de ensino, orientadas sobretudo para a memorização de termos e conceitos e introduzir actividades práticas de resolução de problemas.
Por último, a avaliação deverá ser feita de forma a não considerar exclusivamente a memorização, mas também o raciocínio; estar de acordo com o que é feito nas aulas e ser adequada ao nível cognitivo dos alunos. Os professores devem também colocar questões de grau de dificuldade crescente e não fazerem questões só para os bons alunos. Só este pormenor justifica uma grande parte do insucesso existente em algumas disciplinas, designadamente na Matemática. Não deve haver a concentração de provas de avaliação em tão curto espaço de tempo.

Conclusão
Se não forem introduzidas estas e outras alterações no sistema de ensino, teremos no futuro: alunos apoiados pelas famílias, bem sucedidos academicamente mas pouco criativos; alunos deprimidos por não acompanharem as actividades lectivas como desejariam; alunos excluídos, por não terem quem os ajude a resistir a esta exploração intelectual. Do lado dos encarregados de educação, teremos pais ansiosos devido ao insucesso dos filhos ou pais a dar o “litro” ou a pagar “balúrdios” em explicações, para garantir que os seus filhos tenham sucesso académico, o que não será o mesmo que ter sucesso na vida adulta.
Uma grande parte da culpa deste estado de coisas é da exigência artificial que tem invadido o sistema de ensino. Por exemplo, será que toda esta exigência, em torno da entrada para Medicina, selecciona os mais aptos para o exercício dessa profissão? Duvido que assim seja, e, a confirmar-se esta última hipótese, esta prática só tem prejuízos para toda a comunidade, por excluir porventura os mais competentes e seleccionar candidatos que não têm perfil. Exigência, não é o que estão a fazer com os alunos. Exigência, não é transferir o currículo e os métodos do ensino universitário para o ensino básico e secundário. Os países desenvolvidos não cometem esses erros. A actual situação do sistema de ensino Português, caracterizada pela artificial, elevada e desnecessária exigência, ao invés de promover a integração dos alunos na sociedade, só favorece a sua exclusão. Mais tarde, será toda a comunidade a pagar este custo.
Os factos descritos levam-me a concluir que existe uma clara exploração intelectual de menores. Se virmos uma criança a transportar uma mochila pesadíssima para a escola, pensamos logo que ela está a ser fisicamente violentada. No entanto, se olharmos para “dentro”, com olhos de ver, concluiríamos que ela está também a ser explorada intelectualmente, só que isso é mais difícil de ver e de provar.
Esta cultura de pseudo exigência enfraquece os “fortes” (normalmente os que têm mais dinheiro) e dá “cabo” dos “fracos” (os que têm menores recursos). A ideia de que a escola é aberta a todos e de que a todos cria uma igualdade de oportunidades permite responsabilizar e culpabilizar a criança neste seu insucesso escolar (Roazzi e Almeida, 1988) desculpabilizando todo o sistema e impedindo um debate sério sobre as várias causas do insucesso escolar, pois é nossa convicção que este é multifactorial ou seja sistémico.
O insucesso escolar dos indivíduos em vez de diminuir as diferenças sociais pode mantê-las ou até agravá-las devido ao facto de promover a exclusão das classes mais desfavorecidas. As economias paralelas e subterrâneas, designadamente a proliferação de unidades de produção clandestinas que se tem verificado em Portugal absorvem o insucesso (Roazzi e Almeida, 1988).
Terminamos com a seguinte questão: será que a escola ao invés de permitir ao indivíduo uma plena integração social, uma capacidade para mudar a sua história de vida, um meio para poder melhorar o seu estatuto social de base, uma forma de se integrar na sociedade, uma via para desenvolver plenamente o seu potencial, está sobretudo a criar uma condições para que cada um se vá integrar apenas no espaço social de onde normalmente proveio?

Bibliografia

Afonso, A. (1988) Insucesso, socialização escolar e comportamentos divergentes: uma abordagem introdutória. Revista Portuguesa de Educação, Vol.1, nº2 (41-52)
Canavarro, J. (2004) Plano Nacional de Prevenção do Abandono Escolar Eu não desisto. Lisboa: Ministério da Educação/Ministério da Segurança Social e do Trabalho.


CIDE (2002). El Sistema Educativo Español. Ministério de Educación e Ciência. Centro de Investigación y Documentación Educativa. www.mec.es/cide/jsp/plantilha.jsp?id=pubo1.

Cunha, A. (1999). “Electromagnetismo” – Sua abordagem em manuais escolares de 12º ano. In Castro, R., Rodrigues A., Silva, J. e Sousa, M. (Coord.) (1999). Manuais Escolares – Estatuto, funções, história. Braga: Instituto de Educação e Psicologia. Universidade do Minho, 221-231.

Duarte, M. e Pereira, A. (1999). O manual escolar como facilitador da construção do conhecimento científico – o caso do tema “Reacções de Oxidação-Redução” do 9º ano de escolaridade. In Castro, R., Rodrigues A., Silva, J. e Sousa, M. (Coord.) (1999). Manuais Escolares – Estatuto, funções, história. Braga: Instituto de Educação e Psicologia. Universidade do Minho, 367-374.

Mascaro, J. (2002). Biología y Geología 3º. Madrid: Santillana.

Precioso, J. (1999). A Educação para a Saúde na Escola: um estudo sobre a prevenção do hábito de fumar. Braga: Minho Universitária.

Roazzi, A. e Almeida, L. (1988) Insucesso escolar: insucesso do aluno ou insucesso do sistema escolar?. Revista Portuguesa de Educação, Vol.1, nº2 (53-60).
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- 17/12/06 20:12 Caríssimos colegas participantes neste debate nacional sobre educação
Sou mãe, encarregada de educação atenta e preocupada, de dois jovens de 15 e 16 anos que frequentam o 10º e 11º ano escolaridade no ensino oficial (fizeram-no desde o 1º ano do ensino básico).
Gostaria de vos afirmar a minha enorme admiração pela dedicação e profissionalismo de alguns (muitos ) professores que acompanharam os meus filhos suas vidas escolares. Estou convencida , que muitos pais e mães deste país poderão dizer o mesmo, tal como estou convencida que uma grande percentagem dos pais acompanham preocupadamente o trajecto escolar dos seus filhos , tal como penso que os nossos alunos se esforçam alguns deles muitíssimo mais do que nós com as suas idades (estou à vontade na comparação porque sempre fui uma aluna responsável e com bom rendimento escolar).
Gostaria de vos assegurar que vivo em Portugal e não sofro de qualquer patologia que interfira com a percepção da realidade que me rodeia.
Sou uma fã do esforço, cultivo a exigência e admiro a disciplina.
Tenho-me esforçado por transmitir aos meus filhos estes valores, tal como lhes tenho falado do perigo das generalizações e das “rótulos”.
Não sou professora nem estou profissionalmente ligada de nenhum modo à pratica do ensino; sou “só” mãe, mas ouso pensar e falar de educação, e não gosto que o façam por mim.
Desejo para os meus filhos o melhor. Exijo “qualidade” mas tenho a consciência que eles (mais, muito mais que nós!) dependem da “quantidade”. Não vivo obcecada com “professores fixes”, e desprezo a “balda”. Não vejo incompatibilidades entre disciplina e tolerância tal como me parece possível, ser “fixe” e ser competente simultaneamente.
Vão-me desculpar a imodéstia, mas sinto-me capacitada a dar opinião sobre a maioria dos professores dos meus filhos. Assumo a parcialidade deste acto e acho absurdo que possa ser a base de uma avaliação da carreira de um docente, mas perdoem-me a arrogância: a opinião dos pais (e acrescento dos alunos) não pode servir para nada?
Assisti algumas vezes a excelentes professores serem preteridos por outros, com melhores currículos de “tempo de serviço” e “experiência” (leia-se idade).
Agrada-me a ideia da participação positiva dos pais (a negativa é mais susceptível de ser parcial ) na vida escolar e entristece-me a desconfiança com que sistematicamente pais e professores se olham.
Como comecei por afirmar, tenho encontrado ao longo do percurso escolar dos meus filhos excelentes aliados que me têm ajudado muito, nesta difícil e gostosa tarefa que é educar.
Sinto que todos saímos a ganhar desta união de esforços e não vejo razão para este sistemático esgrimir de argumentos.
Trazer os pais à escola e ter neles um interlocutor privilegiado não traz nenhum mal ao mundo. Chamar os pais à escola para lhe aplicarmos multas não é a meu ver uma estratégia vocacionada ao sucesso.
Os pais terem opinião sobre os professores dos seus filhos, assusta e cria reservas, a ideia dos professores serem avaliados por professores universitários, é sugerida e bem querida!
Sem querer ofender susceptibilidades, e baseada na minha experiência académica numa das faculdades mais desejadas deste país, não vejo nos professores universitários competências pedagógicas excepcionais, acho mesmo que pedagogicamente teriam alguma coisa a aprender com os seus examinados (que me perdoem as excepções).
Não precisamos de estar sempre de acordo, mas é importante, nesta caminhada, sabermos ouvir os nossos parceiros e confiarmos nas suas intenções para que possamos andar lado a lado e contribuir assim para sucesso dos nossos jovens.
Um lamento final para a pouca participação dos pais (“só pais") neste fórum. Receio que se tenham deixado convencer que a educação é só para licenciados em ensino ou mestrados em educação.
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- 28/12/06 21:12 Até aqui como cidadão que se preocupa positivamente e procura participar construtiva e democraticamente num debate que interessa muito seriamente ao futuro dos seus e do seu país dei pontualmente a minha opinião. Foi uma opinião de um cidadão com 61 anos de idade, com frequência do ensino superior e ex-bancário. Também a dei como pai de um filho com 32 anos que tive de acompanhar e tentar ajudar enquanto e onde pude e soube mesmo quando e já no ensino superior. É Designer de Comunicação formado no ESAD. Será uma opinião com lacunas e quiçá menor conhecimento das realidades actuais em certas áreas, mas reflecte certamente a preocupação de um pai sujeito no seu tempo a um ensino bem melhor e muito mais exigente que viu o seu filho crescer e formar-se num ensino fraco, demasiado tolerante, pouco eficaz onde grassavam os mercenários do ensino e donde saiu com imensas lacunas que em casa não tive a menor possibilidade de eliminar! Por estranho que pareça é um Designer que muito pouco foi ajudado a desenvolver-se em Desenho durante a sua formação desde a primária, que mal deu Geometria até chegar ao complementar! Foi obrigado a frequentar física e matemática no técnicoprofissional de artes gráficas dadas como se do ensino normal se tratasse (o que era incorrecto e ilegal), disciplinas essas que de nada lhe serviram no seu curso superior. Em contrapartida não teve francês que lhe veio a fazer falta porque no superior mandavam-lhe ler e estudar livros em línguas estrangeiras! É que os tais catedráticos não se dão ao trabalho de traduzir livros e muito menos fazer sebentas em português, mesmo quando se trata de ajudar os alunos nocturnos trabalhadores estudantes. Assim, permanece com alguma dificuldade em redacção em português correcto, não adquiriu o hábito de trabalho e de auto-controlo, disciplina e custou-lhe imenso ter que investigar, tirar apontamentos e fazer resumos dos livros lidos. Valeu-lhe o facto de o curso ser muito mais prático que teórico! Ao longo da sua formação tive que gastar fortunas com explicações para, mesmo assim, ter tido muita dificuldade em formá-lo! Gostaria que outros pais no futuro não tivessem tantas dificuldades e que os alunos do futuro não cheguem ao superior com tantas lacunas e matérias por dar!
Metas – Há que exigir-se excelência aos alunos para bem do seu futuro dando-lhes boas condições, bons meios e professores quase missionários!
Medidas – Há que expurgar do ensino os maus professores, os mercenários do ensino, aqueles que só exigem promoções automáticas e se não querem sujeitar a avaliação, nem ao cumprimento de objectivos! Não é justo que só ao trabalhador têxtil e a outros manuais se exija que fabrique um determinado número de peças por hora. Bem sei que a matéria prima humana é mais difícil de orientar e dela obter resultados. Mas para isso é que o professor é doutor, deve ter formação pedagógica e psicológica! É por isso que ganha muito mais, que tem um estatuto social melhor e mais férias! Como diz o lema do comunista que entendo dever aplicar-se “a cada um segundo as suas necessidades e de cada um segundo as suas capacidades”! Por último, a educação e formação deve ser uma responsabilidade da sociedade, isto é, de todos; Estado, escolas, professores, pais, faculdades, empresas, entidades formadoras e, claro, pelo menos a partir de dada altura, também dos alunos!
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- 03/01/07 00:01 Este será certamente o meu último contributo para este debate que considero deveras importante e que, a meu ver, deveria ter contado com uma participação massiva. Parece-me que tal não foi inteiramente conseguido até porque de há uma grande temporada para cá deixou de ser publicitado na TV através da qual fui eu próprio motivado! Ainda faltam alguns dias para o termo do debate pelo que me atrevo a sugerir a quem de direito tentasse de novo a publicidade na TV.
A propósito deste debate tenho em meu poder um recorte do JN de 22-08-04, domingo. Trata-se de uma entrevista dada pelo Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando Santo, ao jornalista J. A. Sousa que lhe deu o título – Engenheiros-Bastonário contra o excesso de cursos de Engenharia (310) nas universidades portuguesas- seguindo-se-lhe o verdadeiro título em letras enormes “HÁ EM PORTUGAL UMA CULTURA DO FACILITISMO” … esclarecendo-se mais além no texto onde… no acesso às escolas. Mais diz que as notas dos exames de acesso às faculdades apenas contam 30% para a média global. E porque assim é, as famílias com maiores recursos (ver caixa) recorrem ao ensino privado nessa etapa prévia ao ensino superior. Conseguir notas mais altas, com o objectivo claro de entrar numa universidade pública, é o fito. E isto porque o mercado dá maior e justo (?) reconhecimento a quem se forma nelas. Aqueles que são mais exigente e que fazem um maior esforço acabam por ser prejudicados. Dos 310 cursos de engenharia apenas 97 estão acreditados pela Ordem dos Engenheiros. Assim, os engenheiros destes cursos entram na Ordem sem exame de admissão e os outros têm que se sujeitar a um exame na Ordem. E o que é que acontece na prática? Enquanto o sector privado acaba por escolher os alunos muitas vezes em função da escola de origem, quando chegamos à Função Pública ou às Câmaras, as notas geralmente são um dos elementos fundamentais para a admissão. Isto significa que há licenciados em engenharia a produzir actos de engenharia que o Estado não exige sejam feitos por membros da OE, ao contrário dos empregadores privados. Entretanto, na tal caixa atrás referida que tem o título “Alunos com posses têm mais hipóteses no ensino público” diz-se:
-Serão afinal as universidades privadas mais frequentadas por alunos provindos de famílias com maiores recursos? “Consta é que nas universidades públicas acabam por estar muitos mais alunos de famílias com mais recursos, e que nas privadas acontece o inverso”, responde Fernando Santo. E explica: “As famílias que têm mais poder económico podem pagar os colégios, onde parece ser mais fácil obter melhores notas, e por conseguinte aumentar a probabilidade de esses alunos entrarem para as universidades públicas… Os outros saem prejudicados mesmo tendo melhores qualidades como alunos, e acabam, como última alternativa, por ter de ir para as privadas. Ora esta é uma inversão total do sistema, baseado numa forma de vender facilidades”. Dar a volta a este estado de coisas poderia passar por “alterar o peso das médias” e verificar a qualidade do ensino. NOS ANOS 60, PARA ENTRAR PARA O IST, A FASQUIA ERA DE 14 VALORES E NÃO DE 9,5, aponta o bastonário.

Ora aqui está um assunto premente que terá a ver com medidas e metas e com o que já afirmei algures sobre a exigência do ensino antes do 25 de Abril. Por outro lado, não há dúvida que é um sistema invertido, deturpado, quiçá desonesto, que atira os alunos economicamente mais fracos para as privadas onde pagam fortunas. Os seus pais, para além disso, pagam dos seus impostos também para os do público lá andarem a pagar uma ninharia comparativamente e na hora da verdade, a das candidaturas a emprego, ainda por cima os ricos do público são os preferidos!?!? Quem pode achar isto justo e correcto? Nestes casos, que se devem estender a universidades de outras áreas do conhecimento, há que terminar de uma vez por todas com esta espécie de vigarice legal acabando com a possibilidade de se subverter o acesso ao ensino superior público dando-se tacitamente mais probabilidades de entrar aos alunos ricos dadas as notas conseguidas nos colégios particulares! Depois haverá que se exigir às privadas ensino capaz leccionado por verdadeiros doutorados (não os fraudulentos aprovados nas suas teses por não doutorados) de tal modo que o mundo do trabalho deixe de ter razões fundadas para preferir os formados no ensino superior público! Afinal a igualdade de acesso ao ensino superior está totalmente deturpada e os menos abonados continuam em pé de inferioridade face aos que vão para o público de Jeep e ou BMW. Urge, pois, repor a justiça e a igualdade de oportunidades seja lá como for!
Espero que este debate para o qual humildemente e com saber limitado tenho tentado contribuir positiva e construtivamente venha a servir muito de base para uma melhoria substancial da qualidade do ensino em Portugal a todos os níveis. Faço sinceramente votos para que o meu neto ou minha neta, que espero Deus me conceda, venha a ter a possibilidade de frequentar um ensino renovado, mais justo e eficaz, de modo a tornar-se um cidadão capaz, produtivo, disciplinado e disciplinador, responsável, honesto, de princípios e valores éticos e morais!
Para terminar acho que a educação e a formação dos cidadãos são responsabilidade de toda a sociedade e não somente do Estado e ou dos professores incluindo todos os meios de comunicação, rádio, TV, Internet, etc. Contudo, não me venham dizer que educar é uma função essencialmente exclusiva dos pais! Dizer isso é, no meu entender, quase uma sacanice sem tamanho! Também é, mas não só! Primeiro foi a sociedade boa ou má que educou e formou os pais melhor ou pior! Segundo, a sociedade não tem dado aos pais uma grande parte dos conhecimentos que eles precisam muito de ter para poderem exercer a sua função de educadores de forma competente e eficaz! Terceiro, para se lhes poder exigir muito mais então teremos muito que intervir em sua protecção junto dos empregadores, temos que lhe dar apoios sociais e salários à altura, habitação condigna, chorudos prémios por cabeça de filho, como na Alemanha, permitir até que um dos pais (mulher ou homem) fique em casa com um salário decente previamente estipulado exclusivamente para cuidar dos filhos até uma certa idade como se faz em alguns países! Em quarto e último lugar, haverá que organizar cursos gratuitos, mas obrigatórios, para futuros pais que seriam exigidos como condição sine qua non para se casarem e ou receberem o abono de família, os prémios por cabeça de filho e outras ajudas pecuniárias pontuais! Depois de tudo isto conseguido então sim responsabilizemos muito mais os pais.
Todos sabemos que o apoio à paternidade é miserável só faltando dizer-se que o movimento contra a despenalização do aborto é um meio de apoio à maternidade eficaz e verdadeiramente responsável em termos de futuro para o ser humano vindouro que crescerá num mundo cão sabe Deus como e para vir a ser o quê na sociedade!
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