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- 04/12/06 10:12 O ECD propõe-se substituir os pais pelos avôs tutelares, porque a
escola é concebida como um espaço para a brincadeira


Dou frequentemente comigo a comparar a Banca com o Ensino. São dois
sectores de actividade bem distintos, alvo de políticas de recursos
humanos muito diferentes, mas igualmente cruéis. A Banca sofreu um
processo de redução de pessoal dramático, associado ao
desenvolvimento das tecnologias da informação, que até colocou
muitos quase-analfabetos a utilizar o MultiBanco! O Ensino também já
não precisa de tantos profissionais porque a massificação do
secundário terminou nos anos 90, e a evolução da estrutura
demográfica permite adivinhar que a redução do número de estudantes
é um fenómeno que continuará a observar-se, tornando excedentários
muitos professores.

As políticas de recursos humanos destes dois sectores contrastam pelas
estratégias opostas que seguiram. Na Banca a redução de pessoal
fez-se pela via das reformas antecipadas, e hoje dispõe de um quadro
de pessoal jovem. A adequação da política seguida observa-se
facilmente através dos resultados: a Banca é o sector da actividade
económica que exibe lucros mais volumosos. Observa-se que na Banca, a
produtividade é um dos imperativos da sua actividade, pois os menos
competitivos arriscam-se a perder espaço a serem afastados do mercado
pela concorrência.

O Ensino vive ao abrigo da concorrência, pois descontando os concelhos
das grandes regiões urbanas, o que sucede mais frequentemente é as
distâncias ditarem a "escolha" das escolas. Nos grandes centros,
há maiores possibilidades de "escolha", mas as acessibilidades
acabam geralmente por se revelar a sua maior vantagem competitiva,
observando-se que as escolas de maior dimensão são exactamente
aquelas que são servidas pelo comboio!

O Estatuto da Carreira Docente apregoado pelo governo como instrumento
indispensável para a promoção da qualidade no ensino é
decepcionante, na medida em promove a escola da brigada do reumático,
porque a renovação dos quadros de pessoal já deixou de se fazer.
Efectivamente, os professores mais antigos são agora forçados a
trabalhar mais horas, e durante mais anos. E os mais jovens assistem à
precarização do seu vínculo com a escola, engrossando a massa dos
desempregados.

Senhores pedagogos! Senhores políticos! Senhores bota faladura, que em
educação toda a gente sabe "o que se deve fazer", sem que alguém
alguma vez se preocupe em observar "como" as escolas efectivamente
funcionam! É com os professores que ficarão a cumprir os anos que
lhes restam para atingirem a idade de reforma que contam para promover
a qualidade do ensino?! Bem podem continuar a oferecer-lhes
computadores portáteis, que estes serão sempre mais facilmente
utilizados pelos seus filhos do que em quaisquer projectos do
quotidiano escolar. Quem quiser verificar o resultado do investimento
na educação, ex-paixão do PS/Guterres, que se desloque a uma escola
e tente utilizar um computador do seu Centro de Recursos. Verificará
facilmente que os computadores das escolas são sempre mais lentos e
obsoletos que os que têm em vossas casas ou nas empresas. Porquê?
(...)

O novo Estatuto da Carreira Docente não promove nenhuma política de
recursos humanos, nem leva a qualidade do ensino além dos discursos!
Trata-se efectivamente de mais um instrumento de controlo do défice
orçamental, pois as escolas - na concepção do governo e dos pais -
apenas precisam de ocupar os alunos durante o tempo em que os seus
papás nem saberiam o que fazer-lhes. Esta feliz conjugação de
interesses populistas com a efectiva demissão das famílias das suas
responsabilidades educativas efectivas inventou como barbaridade mor as
actividades/aulas de substituição. Têm receio que os jovens convivam
entre si nas escassas horas de alguns furos? Não é um crime
retirar-lhes o gozo de convívio acrescido de que desfrutavam durante
os furos? Quando aluno, eu nunca faltava às aulas, mas garanto-lhes
que os tempos em que os professores faltaram foram precisamente os que
me deram maior satisfação! Nenhum programa fica por cumprir em
resultado de furos esporádicos, e ninguém se lembrou de pensar no
efeito destes no processo de socialização dos jovens... Certamente
que a concepção de escola que mais votos dá é precisamente a do
albergue aberto 365 dias por ano, 24 horas por dia, sem
descontinuação dos serviços, e a retórica até permite defender
este modelo invocando os "interesses dos jovens"! O ECD propõe-se
substituir os pais pelos avôs tutelares, porque a escola é concebida
como um espaço para a brincadeira. Se a qualidade do ensino fosse
prioritária, se se exigisse produtividade nas escolas, certamente que
se investiria na formação de autênticos professores, que não
entertainers.

_/ose' /|/eto
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- 04/12/06 18:12 Completamente de acordo. E... quem serão os novos professores?????? Quem, mentalmente são, quererá iniciar uma carreira docente quando se apercebe de que:
- terá de saber "qualquer coisita" de "muita coisa" para poder entreter os alunos?
- o professor não é respeitado, não podendo usar de qulquer autoridade (não autoritarismo, obviamente), numa sociedade sem padrões e sem regras, obedecendo ao facilitismo, ao hedonismo, ao consumismo;
- as horas lectivas e intervalos (normalmente utilizados para analisar, discutir, resolver problemas relacionados com os alunos)são contabilizados "à moda" do funcionalismo público. Quando encontrar espaços de reflexão individual, preparação de aulas, auto-formação, enriquecimento intelectual, afectivo, social?
- Qual a profissão em que cada período de 45 ou 90 minutos é totalmente ocupado em termos de atenção exclusiva?

DEIXEM-NOS SER PROFESSORES!!!!!!

O PIOR É QUE A REESTRUTURAÇÃO DE TODA ESTA DESTRUIÇÃO LEVERÁ MUITÍSSIMO TEMPO. eU SEI QUE HÁ MUITAS COISAS A MUDAR, MAS..... COM SENSO, POR FAVOR!!!!!!
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